Na ilha de Santa Maria existe um convite silencioso, quase secreto, para um reencontro com a natureza em estado bruto. É um percurso imersivo que nos leva à Ponta do Pinheiro. Um passeio para a família ou uma alma solitária.

Caminhamos, envolvidos por um bosque denso e terminamos projetados para a vertigem de baías azuis e falésias colossais que rasgam o horizonte. Aqui, a natureza não se impõe; ela simplesmente é.

É um percurso ainda pouco conhecido, um privilégio para os que o descobrem. Ao longo dos seus 900 metros, a comunhão com a natureza é contínua.

O ponto de partida é o Barreiro da Faneca, pintado de tons avermelhados que contrastam com o verde envolvente.
O início do caminho está sinalizado e rapidamente nos engole. Após algumas dezenas de metros, somos absorvidos por um bosque dominado pelo pau branco (Picconia azorica ) e urze (erica azorica) plantas endémicas dos Açores.

O trilho serpenteia por uma clareira, um fio de luz entre as árvores que lutam silenciosamente por um lugar ao sol.
O bosque é denso. Resta uma luminosidade difusa, que brinca com as silhuetas alongadas dos troncos e ramos estreitos. A cor dominante é um verde intenso, quase primordial, das folhas que se agarram à vida. Muitas delas, já secas, cobrem a terra, amortecendo o nosso andar, transformando cada passo num sussurro suave.

O som das aves, por vezes, rompe o silêncio, um lembrete de que não estamos isolados. Algum tempo depois, o roncar distante do mar começa a intensificar-se, uma promessa audível de que estamos próximos do fim da caminhada.

E a curiosidade é satisfeita, num repentino desvelar. O túnel das árvores termina abruptamente e somos subitamente confrontados com a imensidão do azul do céu, um azul que se funde com o do oceano.
O declive abrupto da terra guia o nosso olhar, projetando-nos para a imponência de falésias enormes, que se erguem como sentinelas pétreas de um tempo esquecido.

A Ponta dos Frades aventura-se mar adentro, uma língua de terra escura, moldada pela violência vulcânica. Pela sua forma e pela sua cor, de rochas escuras e vulcânicas, ela dá contorno à baía e revela uma resistência teimosa. O mar, esse escultor incansável, já abriu grutas e túneis na sua base, transformando-a num paraíso escondido para aves marinhas.

Uma casa, isolada no meio de outra encosta vertiginosa, espreita para o mar. É o único sinal da presença humana. (1)

Na vista para a outra baía, a do Raposo, destacam-se falésias com um corte a prumo, assustadoras na sua verticalidade, que desafiam a nossa noção de escala.

Nas nossas costas, um cobertor verde aveludado, tecido pelas Erica azorica, cobre a ilha, suave e convidativo. É o caminho de regresso e que se cruza com o Trilho da Costa Norte, o PRO1 SMA. Um percurso de 8,4 km que percorre a baía da Cré, a Ponta dos Frades, o Barreiro da Faneca e a Baía do Raposo.

(1) Sem confirmação, admito que se trate da “Casa da Cré”. Uma construção com uma história fascinante, aqui contada e que foi idealizada como ponto de interesse pedagógico para as escolas, numa Portaria do Governo Regional, em 2024, que aprova o Plano de Ação do Paleoparque de Santa Maria.

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