É uma das mais interessantes obras de arte e é um dos tesouros nacionais. Está no Museu Nacional de Arte Antiga e há quem venha de propósito a Portugal para ver os demónios de Bosch.

Conforme refere Joaquim Oliveira Caetano, diretor do Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA), as Tentações de Santo Antão. “é uma das maiores obras de Hieronymus Bosch.
Pertence a um conjunto de cinco ou seis grandes trípticos de Bosch que é a sua “obra matricial.”

Ainda nas palavras de Joaquim Oliveira Caetano, um estudioso da obra de Hieronymus Bosch, as Tentações de Santo Antão representam de forma curiosa um tema que é uma marca de Bosch.

No caso, cheia de monstros, de figuras de uma imaginação muito fértil e que ao mesmo tempo nos dão uma visão do que era o pensamento religioso no fim da Idade Média, começo da Idade Moderna. O movimento conhecido como Devotio Moderna que via na paixão de Cristo um modelo religioso e moral. A vida do cristão seria cheia de sacrifícios, de perigos e, de certa maneira, a nossa vivência na Terra aproximava-se da própria paixão de Cristo.

Quando nós olhamos para o tríptico de Bosch temos a sensação de que Santo Antão é um pequeno homem isolado no meio de demónios e tentações e é por isso que o santo, no painel central, ao mesmo tempo que olha para nós, aponta para Cristo que, por sua vez, aponta para Cristo na Cruz.”

Todo o trabalho é feito com mestria. As Tentações de Santo Antão amarram o nosso olhar ao mais ínfimo pormenor. “É uma obra fascinante nos seus pormenores, com toda uma carga de imaginação muito fértil e ao mesmo tempo de profunda religiosidade marcada por este sentimento da necessidade de imitação de Cristo para a salvação.”

A obra revela um pensamento religioso do final da Idade Média, remete-nos para uma moral mas, na verdade, é muito mais do que isso. É um tríptico com mil histórias, depende dos nossos, medos e ideia de pecado.

“Essas histórias quando desmontadas revelam-nos uma espécie de mundo às avessas. Vemos, por exemplo, figuras muito belas de mulher que pretendem ser uma tentação para o santo, mas depois, quando olhamos bem para elas, têm uma cauda de lagarto, de serpente ou pés de cabra. Há uma quantidade de pequenas histórias que são narradas e que refletem, podemos dizer assim, as mil faces do mal.”

De certa forma, é uma representação do mundo em mudança e envolto em prazeres e ócios que não se coadunavam com a moral religiosa.

“É aquilo a que a genericamente se chama uma Tebeida. A representação do mundo do deserto de Tebas que é um local mítico.
Os primeiros ermitas, que constituíram uma ideia de salvação, tinham a ver com o afastamento do Mundo, da civilização e da vida social. Isso torna-se uma constante no pensamento cristão e Ocidental.
No fundo, é nesse imaginário que o pobre Santo Antão continua a ser atormentado pelos seus monstros.”

Na biografia de Santo Antão, contada por Santo Atanásio, ele terá ido viver para o deserto, no século IV, para fugir aos demónios que o tentavam.

Os trípticos eram muito usados nos séculos XIV e XV para oração e permitiam também alguma mobilidade porque podiam ser fechados.
Por exemplo, nas caravelas portuguesas dos Descobrimentos, era vulgar seguir um tríptico em cada embarcação. As abas laterais fecham e o tríptico ocupa menos espaço.
Habitualmente nos trípticos de arte flamenga a parte exterior das abas tinham pinturas que eram consideradas secundárias em função do interior.
No caso das Tentações de Santo Antão é diferente.
Cada uma das abas tem uma cena da paixão de Cristo. Numa está representada a prisão de Cristo. Na outra aba vemos Cristo a caminho do Calvário, com Santa Verónica ajoelhada a seus pés. Neste tríptico as representações mais importantes, afinal, estão nas abas e não no interior.

Joaquim Oliveira Caetano, diretor do Museu Nacional de Arte Antiga

Salienta Joaquim Oliveira Caetano que “essa é uma das particularidades mais interessantes do tríptico. Bosch inverte essa hierarquia. Essa inversão é em grande parte a chave para a leitura do tríptico.”

Hieronymus Bosch, o seu verdadeiro nome era Jerden van Aeken, adoptou o nome da cidade onde vivia, Hertogenbosch. Na altura era um dos pintores flamengos mais prestigiados. Terá vivido entre 1450 e 1516.

O tríptico que está no MNAA terá pertencido a Damião de Góis – um humanista português relacionado com personalidades das artes nas principais capitais europeias – mas é incerta a forma como chegou a Portugal.

Foi restaurado por indicação de D. Fernando II no século XIX e esteve em risco de sair da tutela do Estado português. D. Manuel II, já no exilio, terá reivindicado a posse para os Bragança. Existiu ainda o risco de ir para Espanha.

Em meados do século passado, com a influência do então diretor do MNAA, José de Figueiredo, as Tentações de Santo Antão são das Janelas Verdes.
As fantásticas Tentações de Santo Antão no Museu Arte Antiga em Lisboa faz parte do programa da Antena1 Vou Ali e Já Venho e a emissão deste episódio pode ouvir aqui.

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