O Teatro Lethes é um dos mais antigos em Portugal e é uma autentica jóia protegida por uma redoma de madeira. Na verdade, como via ser referido mais adiante, é uma nau virada ao contrário e suspensa em paredes de pedra do antigo convento jesuíta, do inicio do século XVII.

O Teatro Lethes foi inaugurado em 1845 e foi uma das mais destacadas salas de espetáculo em particular devido à decoração. “O teatro é à italiana, em forma de ferradura.

O tecto é da autoria de um pintor farense. O teatro mantém a traça original. A nível da decoração a talha continua igual, com os dourados e é ferro forjado e madeira.”

A descrição é de Luís Manhita que pertence à ACTA, A Companhia de Teatro do Algarve, que gere a programação do Lethes.
De facto o teto é deslumbrante. A pintura representa figuras mitológicas a tocar instrumentos musicais sob o aplauso de uma outra figura alada

A cobertura tem perfis curvos e ainda motivos florais. Esconde a abóbada da nave da antiga igreja.
A boca de cena também esta decorada. Brancos e dourados cobrem o ferro forjado, os frisos dos camarotes e das frisas até ao quarto piso.


O vermelho das cadeiras parece dar maior dimensão à plateia, mas na verdade, são pouco mais de uma centena lugares sentados e estão muito próximos do palco.
A decoração e a configuração da sala é um tesouro escondido. Surpreende porque em nada corresponde à fachada fria e retilínea do edifício.

Luis Manhita, que já fez visitas guiadas ao teatro, diz que “as pessoas ficam muito admiradas, de boca aberta, literalmente, porque o teatro estende-se por quatro andares e tem o tecto pintado à mão.
Quando fazia a visita guiada e depois de entramos na sala eu tinha de me calar porque as pessoas queriam apreciar. Por outro lado, quando estão a ver um espetáculo, ficam com a sensação que estão a ver teatro dentro da própria casa.
Os actores dizem o mesmo. A proximidade com o público é muito grande.”

O teatro sofreu algumas remodelações. Recentemente o quarto piso foi reservado para estruturas técnicas, mas na globalidade mantém a sua estrutura original e “quando se substitui é igual. Por exemplo, as cadeiras são iguais às originais, com a estrutura em ferro forjado e o assento rebatível.”

A adaptação de igreja para teatro foi iniciativa de um médico italiano e continuou na sua família até 1951. Nesta altura foi vendido à Cruz Vermelha. Nos quase 180 anos de história esteve algumas vezes fechado.

O acesso é aberto à população, mas não no início. Era para a elite local. Sócios e convidados. Por exemplo, as mulheres ocupavam um lugar num camarote que correspondia à disposição dos maridos na plateia.
O Teatro Lethes procurou cumprir o lema que está inscrito na fachada em latim e que significa Instruir, Brincando.

De certa forma, a arquitetura do teatro já é por si um desafio e uma diversão porque, formalmente, inverte a valorização simbólica do templo. Onde estava a capela mor é um lugar de passagem, o foyer ou a designada Sala Verde. Onde era o coro-alto corresponde hoje ao palco.

Em algumas partes, como na entrada para a plateia, conseguimos ver a estrutura de madeira, uma ampliação ao projecto inicial, mandada construir por Lázaro Doglioni.
“Na altura foi construído apenas a plateia e as frisas. Dois anos mais tarde fez-se até à quarta ordem e se fechou. Era uma sala de espetáculos aberta dentro de uma igreja.

Também por razões acústicas a construção é toda em madeira. É um edifício em alvenaria e dentro tem um barco virado ao contrário. Segundo alguns arquitectos dá para desmontar, tábua a tábua e ser montado noutro lado qualquer. Foi do mesmo arquitecto do Teatro S. Carlos e Lisboa e do La Scala de Milão.”

É curioso o evoluir da historia porque Doglioni residia em Portugal depois de um naufrágio ao largo do Cabo de S. Vicente. Adquiriu o antigo convento por 350 mil reis em hasta pública e o teatro de madeira que mandou construir resiste até aos dias de hoje.

Faro tem hoje uma sala para grandes produções, o Teatro das Figuras,  e o Teatro Lethes adaptou-se a espetaculos mais alternativos.

“É uma das salas principais de Faro, é um ex-líbris da cidade, podia ser mais conhecida, mas temos um problema que é a recuperação do edifício. A estrutura de madeira, a sala está impecável, mas o edifício que a suporta pode cair”.

A última grande intervenção no edifício foi há pouco mais de duas décadas. Desde 2010 que a gestão e programação do teatro é da ACTA que promove, em particular, espectáculos de teatro, musica e dança e tem uma profunda relação como o meio escolar da região.

O Teatro Lethes está classificado como imóvel de interesse publico.
Teatro Lethes de Faro: uma joia dentro de um “barco” de madeira faz parte do programa da Antena1 Vou Ali e Já Venho e a emissão deste episódio pode ouvir aqui.

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