Se não fosse a pandemia, em Salvaterra do Extremo estariam agora, cumprindo a tradição, cerca de um milhar de pessoas no bodo tradicional. Dita a tradição que o bodo teria mais de mil quilos de carne de ovinos e caprinos, arroz, chanfana, pão vinho e sopa de grão.

Bodo de Salvaterra do Extremo © Carlos Rascão

Dentro de 11 dias, na quinta-feira da próxima semana, seria na aldeia de Monfortinho.
Habitualmente muitos dos comensais são de fora, em particular espanhóis porque Salvaterra e Monfortinho fazem fronteira com Espanha.

Bodo em Monfortinho em 2019 © Maria José Abrantes

Ambos os bodos são em honra de Nossa Senhora da Consolação. Como forma de agradecimento.
Segundo António Silveira Catana “diz-se que, numa certa altura, houve uma praga de gafanhotos que destruiu rebentos de árvores, produtos hortícolas.. desapareceu tudo. Prometeram a N. Senhora da Consolação que se os livrasse da praga fariam todos os anos uma festa”.
Nesse ano o bodo foi feito com as cabras que morreram de fome. Nos anos seguintes a praga não voltou e o bodo continuou, conforme o prometido. Há apenas a noticia de uma outra vaga, em Maio de 1901. Segundo o relato do jornal de Penafiel, chegaram a Salvaterra do Extremo 60 praças de infantaria que ajudaram a apanhar “muitos milhares de kilos daqueles insetos, assim como nas freguesias de Segura, Rosmaninhal, Penha Garcia, Monsanto e Medelim.”

Panelas de ferro do Bodo em Salvaterra do Extremo © Carlos Rascão

A praga a que António Catana, investigador e autor de várias obras sobre etnografia no concelho de Idanha-a-Nova, se refere terá ocorrido há cerca de 150 anos. Toda esta região era cerealífera e frequentemente os agricultores e pastores queixavam-se das pragas.
Não muito longe, na Lousa, há a tradição de outra romaria, em Maio que terá igualmente origem como agradecimento pelo afastamento de uma outra praga de gafanhotos. Ada Lousa terá sido mais cedo, em 1640.

Em Monfortinho e Salvaterra do Extremo para evitar novas pragas a população oferece os alimentos. Os festeiros preparam as carnes com antecedência e são cozinhadas em muitas panelas de ferro que ocupam os largos de Salvaterra e de Monfortinho.

Procissão no Bodo de Salvaterra do Extremo © Carlos Rascão

Habitualmente os comensais não precisa de fazer reserva. Aparecem e procuram um lugar. “Cada um dá o que quer. Eles têm mesas preparadas, pratos e panelas de ferro estendidas na rua. Quando passa a procissão o pároco abençoa os alimentos. Só depois de acabar a procissão é que é servido o bodo.” Os comensais são em grande, “felizmente, até hoje, a comida tem chegado para todos.”

Panelas de ferro do Bodo em Monfortinho © Maria José Abrantes

Na sua origem, em 1877, o bodo era só em Monfortinho e começou a ser dedicado a Nossa Senhora da Consolação porque havia na aldeia um convento franciscano dedicado à santa. Na altura Monfortinho não chegaria a ter uma dezena de casas e menos de duas dezenas de moradores e pertencia à freguesia de Salvaterra do Extremo, que foi, entretanto, extinta em 1855.

Confeção do Bodo de Salvaterra do Extremo © Carlos Rascão

Com a separação administrativa e porque ainda é considerável a distância entre as duas localidades, em 1905, os de Salvaterra do Extremo decidiram autonomizar o bodo e construir a sua própria capela. Com a desertificação a maior dificuldade tem sido garantir a continuidade do bodo.
Em Salvaterra foi interrompida alguns anos e em 2013 constituíram uma confraria para garantir a continuidade do evento.
Um dos símbolos é a panela de ferro. Tal como em Monfortinho que tem uma suspensa numa estrutura metálica no largo onde se faz o bodo, ao lado de uma imagem de Nossa Senhora da Consolação.

Os de Monfortinho gabavam-se de nunca terem parado o “esforço e a dedicação de um povo” desde 1877. A pandemia obrigou a fazer uma interrupção no ano passado e este ano.

Roteiros no concelho de Idanha-a-Nova

Bodos de Salvaterra e de Monfortinho para afastar pragas faz parte do programa da Antena1 Vou Ali e Já Venho e a emissão deste episódio pode ouvir aqui.

2 Comments

  1. António Poças

    Boa noite.
    Tenho interesse nas origens dos bodos.
    Sabe de bibliografia da época?
    Com os melhores cumprimentos
    António Poças

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